Boas notícias em uma segunda

Li um texto hoje do sítio Mídia Vigiada, de autoria de Sérgio Domingues. Destaquei, especificamente, o primeiro texto da lista, sobre a violência no Rio de Janeiro e a abordagem da mídia. Importante lê-lo.

Algumas informações trazidas pelo autor, colocadas lado a lado, oferecem uma visão aberta sobre o tema. A saber, ações da Força Nacional de Segurança e das polícias estaduais no Complexo do Alemão, desde maio, já deixaram pelo menos 44 mortos e 80 feridos. Não acompanhei com profundidade o caso, principalmente, pela mídia. Vi que alguns setores condenaram as atividades de repressão, mas não me detive.

Vi no texto de Sérgio que as primeiras informações publicadas nos jornais sobre os mortos de 27 de junho apontavam que 11 dos 19 tinham antecedentes criminais. “Estranha informação. Primeiro, porque ter antecedente criminal não deveria significar condenação à morte. Segundo, porque ao falar dos que teriam ficha suja, nada disseram sobre os oito dos mortos que não a tinham”. De cara, quando li, me lembrei de uma música do MV Bill.

“Teu pai te dá dinheiro
Você vem e investe
No futuro da nação
Compra pó na minha mão
Depois me xinga na televisão
Na seqüencia vai pra passeata levantar cartaz
Chorando e com as mãos sinalizando o símbolo da paz”

Na exposição do espancamento da empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, na madrugada do dia 22 de junho, no Rio, a cobertura da imprensa tem debatido a educação que os quatro agressores da classe média, moradores da luxuosa Barra da Tijuca teriam recebido. “Psicólogos, pedagogos, especialistas em geral, são chamados a falar do caso. Claro que o meio familiar deve ter contribuído muito para que essas aberrações humanas cometessem barbaridades. Mas, em nenhum momento, questionou-se outras influências sociais, que podem transformar pessoas em bestas fascistas. São séculos de hegemonia racista e desprezo pelos pobres. Antigamente, tais idéias eram espalhadas apenas pelas escolas, igrejas e publicações em geral. Há uns 50 anos, veio o reforço em grande escala da grande mídia”.

Como é que se enfrenta isso? Há umas semanas aqui em Fortaleza nós tivemos um seminário que falava sobre a construção de uma agência de boas notícias. Assim, solta, a idéia parece uma aplicação de bottox. Diante dos sinais da falência social, vamos preencher nosso imaginário com informações que dão um alento de paz. Um artigo de Carlos Alberto di Franco, no blog Cia da Boa Notícia, é mais profundo. Mas ainda me parece aquela piada sarcástica do outro, que fala com ironia da merda que é esse mundo sentado na mesa do bar, e depois volta para trabalhar a semana inteira pelo seu próprio sustento. “Não vou salvar o mundo, oras!”

Di Franco tem uma formulazinha fuleira. “Denunciar o avanço da violência e a falência do Estado no seu combate é um dever ético. Mas não é menos ético iluminar a cena de ações construtivas, freqüentemente desconhecidas do grande público, que, sem alarde ou pirotecnias do marketing, colaboram, e muito, na construção da cidadania. A violência está aí. E é brutal. Mas também é preciso dar o outro lado: o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação”. Ou seja, enfrentar a “superexposição da maldade” (pela mídia) com uma força-tarefa de exposição da bondade (ou a luz no fim do túnel). Uma superfilosofia pelo equilíbrio, nada mais inútil!

Não existe equilíbrio pra quem está do lado da merda, só para quem está sendo arrastado para ela, pelo imenso rôdo do caos social. Do lado do medo, do abandono, só tem uma esperança vazia na ajuda que deve chegar (só que ninguém sabe quando). Do lado daquele que não tem direito a nada, de que vale saber do lado do bem? Notícias boas só servem para das conforto às famílias com seus apartamentos gradeados e seus muros com cerca elétrica. Para os demais, só existe resistência e enfrentamento ou desistência e resignação. E quem desiste, está morto.

~ por marcelo inacio em 9.Julho.2007.

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  1. clap, clap!

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