o inferno de sartre

O João brinca aqui no chão da sala, ao meu lado, da mesma forma que sempre faz quando está aqui em casa. Há pouco me perguntou como vai ser seu primeiro dia de aula este ano, em uma escola nova, novos amigos, rotina completamente nova. Mas ele, naturalmente ansioso, só fica pensando isso por uns momentos e volta para os seus bonecos que estão brigando entre si, manipulados e sonorizados por ele.

Em algum momento eu fui tranqüilo assim. Hoje sei explicar as coisas, mas tenho cada vez menos argumentos. Mora aí, para mim, uma enorme contradição ou talvez apenas uma grande verdade, porque me peguei pensando nela de novo e me vi correndo atrás do rabo. Essa sensação de novidade, de dormir e acordar com tudo em branco, foi embora deixando no lugar a impressão de que tudo é a mesma coisa e se repete e se repete.

Não são as mesmas pessoas, não, tem diferença no colorido, nos momentos, mas é um novo sem novidade, dá para entender? Às vezes parece superficialidade, culpa minha, impaciência e intolerância, tem todas as características de rabugice e não nego nada disso. É possível que seja uma combinação fulminante de tudo isso, eu estou mais velho, mas isso é desculpa pronta.

O fato é que canso das noites divertidas e sem propósito, canso da dedicação aos trabalhos sem resultados novos, ser amigável, divertido, simpático, dar resultados, ser competente, cumprir as obrigações, é tudo um jeito de ser que me deprime. Estar com amigos e amigas por estar, só pela companhia (muitos são excelente companhia), já me deu prazer, hoje não dá mais. Nada pior, porque existe alegria com eles e com elas. Mas eu sou triste também e aqui, deste lado, não tenho muita companhia. Na hora que sinto o mundo pesar demais e as coisas estão profundas, aprendi que não devo chamar ninguém e ninguém resolve vir, então, fica cada um com seus problemas, como manda a ordem, e todo mundo cuidando de si.

Sei explicar isso, mas não sei como se resolve. Enxergo mas não vejo além desse paredão, então tudo fica se repetindo nessa sala de estar, onde todo mundo tranca a porta para o seu quarto escuro. Não li ainda o Entre Quatro Paredes, peça do Sartre, que tem a famosa frase “o inferno são os outros”. Descobri que a história fala sobre a repetição e pensei nisso antes de começar este texto. Tem um dos personagens que diz “é melhor levar cem mordidas, chibatadas, ácido sulfúrico do que esse sofrimento mental, este fantasma de sofrimento, que acaricia e nunca dói o bastante”.

Não é simples. Nada é simples! Eu, que “nunca serei nada”, tenho complexidades demais, demais! Ainda que eu saiba disso, tenho a suspeita de que elas não doem o bastante.

~ por marcelo inacio em 21.Janeiro.2008.

2 Respostas to “o inferno de sartre”

  1. Obrigada. você expressou exatamente o que eu estava sentindo, mas como não tenho essa intimidade com as palavras não conseguir expor.
    dois trechos:
    “Essa sensação de novidade, de dormir e acordar com tudo em branco, foi embora deixando no lugar a impressão de que tudo é a mesma coisa e se repete e se repete.”

    e o final, claro.
    “Não é simples. Nada é simples! Eu, que “nunca serei nada”, tenho complexidades demais, demais! Ainda que eu saiba disso, tenho a suspeita de que elas não doem o bastante.”

  2. Obrigado eu digo, Lélia, pelo elogio, pelo entendimento e pela visita. Bem-vinda, a casa é sua.

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